... Porque com palavras pode-se voar.

29 de novembro de 2011

Retrato


Noite. Debaixo dos panos. Uma velha amiga me pergunta sobre uma velha história que em mim não surte mais sentido ou efeito. Aí me lembrei de um velho Ele, Ele que já abandonara meus pensamentos há tempos, e que só o resquício do resquício se mantinha/resistia no subconsciente. Mas ao abrir a boca, deixei as pequenas memórias escaparem, e romperam no espaço tão rápido e repentinamente que formaram uma lembrança inteira Dele, como se o próprio estivesse respirando do ar do quarto...
E aí eu me lembrei. Do jeito, dos traços, do trato, e retratos, invadindo mente e boca e, confesso, um pouco de coração. Seus terríveis olhos enchiam-me a mente, embriagavam-me com o teu conteúdo, faziam-me síntese de mim mesma. Descobriam coisas que já cobertas, e tão bem escondidas que nem eu sabia que estavam lá. O fato é que eu nem sabia que ainda sabia tanto sobre Ele. Freei-me antes que lhe revelasse ali, sem zelo algum às lembranças que eram minhas, e só minhas.
- Acho que já disse demais - e virei-me nas cobertas, com as mãos trêmulas e o orgulho ferido - Já passa da meia-noite... 
E dormi. E sonhei. Com algo que não existe mais, isso se um dia existiu. Mas o inconsciente sabia, e se permitiu viajar. Não o julgo, só o deixei terminar a fantasia, que me despertou antes que o alarme tocasse para um novo dia que me aguardava sóbria de irrealidades.

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