... Porque com palavras pode-se voar.

21 de fevereiro de 2012

Inconclusivo

    A estação é veraneia. O clima quente da noite abre os poros, atiça a libido das almas envoltas no perfume e na música. A lua, como um farol incandescente, despeja um véu fino de brilhosidade sobre todos as silhuetas, destaca-as da monocromática noite. É época de viver loucos amores, de bater de frente, se jogar no momento, aproveitar o presente como se o amanhã nunca fosse chegar, e como se nunca tivesse houvido um passado. Sem cargas. Os jovens se aventuram com o espírito de uma folha em branco, pronta para ser preenchida, linha por linha. Sem roteiro, rascunho ou título.
    Por entre as leves e cintilantes almas do verão cruzava um ser quase inanimado. Ela andava fincando os dois pés a cada passo. Pulando duas batidas a cada pulso. Antonita, parecia vestida de olhos de vidro, que só sabiam observar por função biológica, entretanto a nada se comoviam. Como pareciam de outro mundo aqueles olhos! De uma beleza infinita de tão incrédulos, inconclusivos. Acomodou-se em um banco de madeira vazio, que instantaneamente ao toque estalou. Era como jogar um cubo de gelo na grelha quente.
    Ela não pertencia mais ali. E nem mais a lugar algum. Não conseguia dependurar-se em pensamentos bons e flutuar no calor da estação porque havia perdido o segredo. Tanto fez de flutuar por aí no passado, distraída, desarmada, que perdera o jogo. Apaixonou-se uma, duas, três vezes. Amores que vieram, transformaram, e partiram. Ela não era mais uma folha em branco. E já não havia mais linhas para outra história.
    Havia se entregado demais. De corpo, coração, alma, intelecto e destino. A hora de guardar-se para si mesma chegara. Ela já não era um participante do jogo, e sim um observador, um visitante. Ignorava as regras e fugia dos compromissos. Decidiu trancar o coração. Por isso, mesmo ela estando sentada lá, era como simplesmente não houvesse presença.


      Não que ela escolhera isso tudo, foi de simples escolhido para ela. E por mais que empenhe todas suas forças em estar capaz de seguir em frente, nem tudo é possível de se apagar. Uma folha que fora escrita pode até ser apagada, porém nunca volta a ser totalmente vazia, sem marca alguma. O grafite desaparece, mas a ponta do lápis insculpe tudo em gravuras. E o branco nunca volta a ser tão branco.

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